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Açúcar, inimigo público número um


Açúcar, inimigo público número um

Se fosse um caso de tribunal, seria “O povo contra o açúcar”. Pois é justamente essa a tese de “The case against sugar” (em tradução livre, “O caso contra o açúcar”), de Gary Taubes, lançado em dezembro nos Estados Unidos. Taubes escreve sobre nutrição desde a década de 1990 e é também autor de “Por que engordamos e o que fazer para evitar”, disponível em português. Não tem medo de afirmar que o açúcar é o cigarro dos dias de hoje, inclusive com um poderoso lobby em ação. Nos EUA, o diabetes se tornou uma doença prevalente e a obesidade é uma epidemia. No Brasil, a situação não é diferente: estudo divulgado esta semana pelo Ministério da Saúde e pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) mostra que a proporção de obesos usuários de planos de saúde subiu 37% em sete anos. Para Taubes, a raiz do problema está numa sociedade viciada em açúcar, como já foi com o tabaco. É o que ele afirma no livro recém-lançado: “Imagine uma droga que não precisa ser injetada, fumada ou aspirada para provocar efeitos calmantes e sublimes. Imagine misturar isso com todo tipo de comida e principalmente líquidos que, ministrados a crianças, provoque uma sensação de prazer tão profundo e intenso que persegui-la será uma meta durante toda a vida. O consumo excessivo desta droga terá efeitos no futuro, mas nada a curto prazo: nada de tonturas, desmaios ou alterações no discurso”.

Durante o racionamento na 2ª Guerra Mundial, o governo americano decidiu limitar severamente seu consumo (de acordo com a Organização Mundial da Saúde, do ponto de vista nutricional as pessoas não precisam de açúcar em suas dietas). Foi quando a indústria criou o Sugar Research Foundation, para financiar e divulgar pesquisas favoráveis à substância. Taubes é cofundador da The Nutrition Science Initiative (NuSI que, em inglês, se pronuncia como “new see”), entidade cujo propósito é realizar pesquisas para esclarecer controvérsias sobre nutrição e o que realmente se poderia chamar de uma dieta saudável, com o objetivo de combater a obesidade. Ele não foge da polêmica e diz que os cientistas preferem listar uma série de fatores – como gordura saturada, sal e falta de exercício, entre outros – quando, na verdade, o açúcar está por trás das principais doenças crônicas que atualmente afligem a humanidade.“Culturas com dietas ricas em gorduras, como os Inuit (que habitam a região ártica), só começaram a sofrer com obesidade, hipertensão e doença coronariana quando passaram a consumir grandes quantidades de açúcar. O diabetes praticamente não existia na China até a virada do século XX, mas hoje é endêmico, atingindo 11,6% da população adulta”, dispara.

Crítico feroz do argumento de que se pode comer de tudo, desde que de forma moderada, considera um ultraje que os hospitais ofereçam a pacientes internados o que chama de “lixo”, como gelatina e pudins. “O açúcar tem um efeito único do ponto de vista fisiológico, metabólico e endocrinológico no organismo, funcionando como um gatilho que leva a um estado de resistência à insulina e ao desenvolvimento de doenças como obesidade, diabetes, gota, síndrome do intestino irritado e até asma”, denuncia. A resistência à insulina é o termo empregado para a situação em que este hormônio que circula no sangue não tem sua atividade plena, levando a uma concentração aumentada da glicose, podendo resultar num estado de pré-diabetes ou mesmo de diabetes. O Brasil é um dos países que mais consomem açúcar. Ele está no imaginário coletivo e associado às nossas melhores lembranças: aniversários, casamentos, festas de fim de ano e todo tipo de comemoração. O que é preciso fazer é traçar uma fronteira e limitar o consumo somente a essas – e somente essas – ocasiões especiais. Seu futuro vai agradecer.

 

Fonte: g1.globo.com/bemestar